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Hierarquia dos Saberes


O acesso à Universidade Federal me trouxe profundos questionamentos sobre o funcionamento de nossa sociedade. Parece que muitas vezes os estudos e experiências se chocam em uma realidade dura, que não cabe liberdade. Digo, estudar processos de avaliação, como futura pedagoga, e questionar de forma humana tais processos ao mesmo tempo em que sou submetida a tudo isso de forma agressiva. Aprendi, nos primeiros semestres, que pesquisa científica tem um método inquestionável e que não cabe pensar o ser humano de forma holística, e nisso, incluo espiritualidade. Eu engoli isso de forma um tanto incomodada. Mas afinal, fazia sentido. Lá era o lugar da pesquisa, da ciência, da fala que é falada por x e que só posso falar o mesmo se mencionar x. Mas afinal, quem foi o primeiro a falar? Deixei então parte da minha subjetividade para ser questionada lá fora. Ou seja, houve uma separação. Mas chega um determinado momento, quando estudamos humanidades, e esse momento chegou para mim, que parece que não dá mais para deixar de lado certas coisas. Veja, a pesquisa científica pode fazer muito sentido para a elite branca, masculina, heterosexual, cisgênera que a construiu. Mas como debateremos sobre outras subjetividades nesse sistema?


Nos Estados Unidos, as instituições sociais que legitimam o conhecimento, bem como as epistemologias ocidentais e eurocêntricas que elas promovem, constituem duas partes inter-relacionadas dos processos dominantes de validação do conhecimento. Em geral, acadêmicos, editores e outros especialistas representam interesses específicos e processos de certificação, e tudo aquilo que eles afirmam ser conhecimento deve atender a critérios políticos e epistemológicos vigentes nos contextos em que se inserem (Kuhn, 1962; Mulkay,1979). Os processos de validação refletem os interesses de homens brancos da elite, uma vez que tal esfera é controlada por esse grupo. (COSTA, p. 142, 2018)


A partir da citação acima e considerando a globalização, conseguimos destrinchar um pouco mais desse pensamento hegemônico que paira na área de pesquisa científica. Em meu quarto semestre, que estou finalizando neste momento, no curso de pedagogia, cursei uma disciplina optativa sobre educação quilombola. Nessa disciplina, entramos em contato com um livro intitulado Partilha de Reflexões sobre as Artes, as Lutas, os Saberes e os Sabores da Comunidade Quilombola de Conceição das Crioulas. Nele, há um poderoso relato escrito por uma professora quilombola do quilombo. O ponto central a ser exposto aqui para continuar nossa reflexão, diz respeito à implementação de uma educação escolar “específica, diferenciada, intercultural e decolonial” (RODRIGUES, p. 15, 2020) feita neste quilombo. A qual causa um estranhamento, segundo a autora, da sociedade por ser uma educação que foge dos padrões eurocêntricos. E mais, por ser pioneira facilmente é deslegitimada. Dentre esse processo de resistência, luta por direitos já conquistados mas ainda não garantidos (referente às Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Escolar Quilombola na Educação Básica) e desconstrução de preconceitos, muitas instituições de pesquisa foram procurar a Comunidade Quilombola de Conceição das Crioulas. O que a autora relata, entretanto, é que essa procura tinha uma intenção específica - que o saber das instituições fosse apreendido pela comunidade. E qual é esse saber? A ciência.


(...) vários profissionais vinculados a diferentes instrumentos de comunicação, começaram a nos visitar, em busca de informações sobre a nossa história, nossas lutas, nossa cultura, nossos conhecimentos herdados dos nossos antepassados e, a partir dessas, escrever e/ou divulgar coisas sobre o nosso lugar, sobre o nosso povo, muitas vezes, de forma discordante com a nossa realidade. Enfatizamos que, quando alguém age de tal forma, quando não prejudica, também não dá retornos positivos para a comunidade.

Essas e outras circunstâncias fizeram com que percebêssemos que a permanência da supremacia branca-acadêmica, a época, imposta de forma muito mais potente que nos tempos atuais, foi e ainda é um dos entraves no processo de construção de parcerias, de acordo com o nosso conceito do que é ser parceiro.

As inúmeras experiências vivenciadas na/pela comunidade de Conceição das Crioulas fizeram com que esta passasse a entender e defender diálogos não hierarquizados entre as universidades e as comunidades tradicionais. Isso porque, acreditamos ser possível transformar a ideia de competitividade em princípios de complementaridade recíproca. (RODRIGUES, p. 16, 2020)


A partir do trecho acima, é possível verificar o que chamarei, aqui, como hierarquia dos saberes, onde um é válido em detrimento do outro. Veja, reconheço a luta em defesa à ciência e sua importância. Ninguém aqui quer voltar à ser queimado pela inquisição (não, não escreverei inquisição com i maiúsculo) por ser considerado desviante da religião católica. Podemos, hoje, inclusive, salientar a importância que o conhecimento científico tem. Afinal, esperamos todos, mesmo que com alguma resistência, a chegada da tão esperada vacina contra o covid-19 depois de quase um ano em situação pandêmica. Mas qual é o problema de colocar o conhecimento científico como o único correto, ou único válido? Há o perigo de excluirmos, eliminarmos subjetividades não contempladas neste sistema construído por uma elite, como já disse, branca, masculina, hetero e cissexual.


É então possível pensar a parceria, como coloca Rodrigues, entre os conhecimentos ou então a construção de novos instrumentos teóricos e ideológicos a partir de diferentes subjetividades?


Ao ressignificar a raça, esse movimento social indaga a própria história do Brasil e da população negra em nosso país, constrói novos enunciados e instrumentos teóricos, ideológicos, políticos e analíticos para explicar como o racismo brasileiro opera não somente na estrutura do Estado, mas também na vida cotidiana das suas próprias vítimas. Além disso, dá outra visibilidade à questão étnico-racial, interpretando-a como trunfo, e não como empecilho para a construção de uma sociedade mais democrática, onde todos, reconhecidos na sua diferença, sejam tratados igualmente como sujeitos de direitos. (GOMES, p. 21-22, 2017)


Veja, foi e é necessário ressignificar a raça, partir de outro ponto, que não do branco, para explicar o racismo brasileiro.


Assim como é necessário considerar o movimento feminista como um teoria que precisa ser questionada e revisada. Afinal, quem é representada por tal?


Resistimos ao domínio hegemônico no pensamento feminista se o encaramos como uma teoria em formação que necessariamente precisa ser criticada, questionada, reexaminada e confrontada com novas possibilidades. Minha crítica persistente se nutre do fato de ser parte de um grupo oprimido, bem como da minha experiência com a exploração e a discriminação sexista e da sensação de que as análises correntes do feminismo não constituem a força modeladora de minha própria consciência feminista. Isso se aplica a muitas mulheres. (HOOKS, p. 39, 2019)


Olha só, mesmo dentro dos movimentos sociais precisamos nos atentar a diferentes perspectivas, realidades, formas de estar no mundo; considerando que A não é melhor que B que não é melhor que C. Dentro da perspectiva do conhecimento deveria ser o mesmo. Isso não significa uma mistura dos saberes desorganizada e sem intencionalidade.


A caminho da finalização, gostaria de compartilhar mais uma vivência proporcionada pela disciplina referente à educação quilombola. Em um dos encontros síncronos, tivemos o prazer de receber um convidado para compartilhar um pouco da história do seu quilombo, sua história, a história de seus ancestrais. E é aqui que voltamos ao ponto referente à espiritualidade. Mas antes gostaria de destacar uma fala dele que me tocou profundamente. Ao comentar de uma liderança feminina do quilombo, que combatia de frente a visão hegemônica da época (final do século 19, início do 20), o convidado colocou que há uma tendência das pessoas a falarem que ela, por questionar toda aquela estrutura opressora, estaria à frente de sua época. Mas o que o convidado levantou foi: ela não estava à frente de sua época. Ela era fruto de sua época e história. O colonizador que estava atrasado.


Bom, depois desse deleite voltemos, agora sim, a falar da espiritualidade. O que o convidado colocou sobre esse ponto foi que não se tinha o costume de separar as partes da vida. A vida é a espiritualidade, o trabalho, as relações. A espiritualidade está e é no cotidiano. Não se classificava, separava as partes da vida. Havia senso de coletividade. Gostaria de compartilhar outra experiência que me foi contada por uma amiga próxima. Ela foi conhecer uma ideia e nessa visita fizeram uma trilha pela floresta para conhecerem algumas plantas medicinais, comestíveis e etc do local. Relata ela que, quando o indígena responsável por guiar o grupo comentou da planta que faz o colírio sananga, um homem branco disse: nossa, imagina quantas pessoas não ficaram cegas para vocês descobrirem este colírio. O indígena, por sua vez, respondeu: olha, aqui a gente não descobre as coisas como os europeus. Não realizamos testes laboratoriais. Não testamos as coisas. Aqui, a gente conversa com as plantas e elas nos respondem.


Bom, a partir desses exemplos acredito que talvez fique um pouco mais fácil de compreender meu ponto. É preciso e é possível horizontalizar os conhecimentos. Isso não significa creditar crenças do senso comum e fake news. Isso significa compreender que para outras subjetividades há outras formas de conhecimento. E este não é pior que o científico. Significa compreender que para determinado grupo, a espiritualidade está presente de forma substancial e portanto não pode ser desvinculada de seu saber. E por isso o saber é inválido?


Ao final da disciplina presente, Educação e Filosofia II e da disciplina Educação Quilombola, me coloquei a pensar como, de forma prática, poderia contribuir para a horizontalidade do conhecimento. Percebo que, estando em posição privilegiada, dentro de uma universidade federal, posso questionar, sempre que tiver oportunidade, a hegemonia do pensamento científico eurocêntrico. Questionar quando uma professora ou professor disser que outros conhecimentos e por tanto outras subjetividades são inválidas. Quando nós, como pesquisadoras e pesquisadores, estivermos em posição hierárquica ao que estamos estudando, ao invés de enxergar, na pesquisa, uma parceria verdadeira e não fundada a partir de interesses pessoais. E lembrando, a todo instante, que não me faço independente do outro e da natureza, que a ideia de superioridade nos levou ao auto destruimento.





  • O grupo de pesquisa Laroyê publica textos selecionados, oriundos dos trabalhos das disciplinas ministradas pela Profa. Ellen Souza, na UNIFESP, com a autorização dos discentes. Outras publicações possíveis são as dos membros do Grupo de Pesquisa Laroyê e/ou parceiros. Assim sendo, no momento, o blog/site não está aberto para publicações outras, devido à estrutura atual.






Referências Bibliográficas


COSTA, Joaze Bernardino. Decolonialidade e pensamento afrodiaspórico. Ed. Autêntica, 2018.


GOMES, Nilma Limo. O Movimento Negro educador: Saberes construídos nas lutas por emancipação. Ed. Vozes, 2017.


HOOKS, bell. Teoria Feminista: da margem ao centro. Ed. Perspectiva, 2019.


RODRIGUES, Maria Diva da Silva. Pelas artes, Conceição das Crioulas e universidadesse unem contra a hierarquização de saberes.In Partilha de Reflexões sobre as Artes, asLutas, os Saberes e os Sabores da Comunidade Quilombola de Conceição das Crioulas LivroII, 2020.

 
 
 

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